Não é muito do meu feitio, mas quando vejo as pessoas bestializadas no trânsito, segurando a porta do elevador enquanto terminam uma conversa (e os vizinhos que se danem), quando ante um bom dia permanecem em silêncio, quando se dirigem a porteiros como se fossem sinhás e sinhôs antes da abolição da escravatura, quando são sórdidas, fofoqueiras e maledicentes, fico descrente com o homo sapiens (?). Nessas horas, acho bacana ser “salva” por Jorge Luis Borges.

Los justos – Jorge Luis Borges

Un hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

Sempre fui uma pessoa cachorros. Afora o pintinho que ganhei numa daquelas famigeradas feiras de animais (e que, para meu desgosto, morreu muito rápido), só tive cachorros em casa. Raysa, pastora alemão meiga, meiga; e Ulisses, daschund alegre e espertíssimo. Ambos já estão com São Francisco de Assis nos olhando lá de cima (?).

Ultimamente, vinha acalentando a vontade de voltar a ter um bichinho em casa, mais precisamente um gatinho. Sempre tive uma relação perto/longe com gatos. Explico: nunca os tive, mas sempre tive amigos e pessoas próximas que os tinham. Mas eu, pessoa-cachorro, achava que nunca gostaria de ter um gato porque felinos não costumam dar a menor bola para nós humanos (sábios, na verdade), que adoramos um cachorro abanando o rabo quando nos vê. Mas sempre fui encantada pela independência e presença do bicho.

No meio dessa vontade, e como o universo conspira, C. – minha amiga doce-doce – me mandou um e-mail dizendo que ficaria super feliz se eu ficasse com um gatinho da última ninhada da Odessa (gata dela). Meu lado Fidel quis aceitar logo, mas fui chamada pelo lado Churchill e fui discutir o assunto com S. que depois de uns dias topou (mas tenho a impressão que ele sempre vai dizer que foi por minha causa).

Aproveitando minha ida ao casamento de T. fui buscá-lo. Leon. Como Tolstoy, para honrar suas origens russas (ele é Russian Blue – ou Azul da Rússia; seus pais se chamam Odessa e Nikolai e seus irmão são Anatoli, Kolya e Katerina). É uma coisa linda!!! Depois de ter enfrentado dois dias de muitas mudanças e andanças em caixa de transporte de gatos ele está se adaptando ao novo lar dele e é muito, muito carinhoso, dorme no meu colo e já dá um outro astral à casa.

É diferente ter um bicho que pouco sairá de casa e sempre me intriga essa capacidade infinita deles ficarem dentro do apartamento, saindo para tomar vacina uma vez por ano, mas parece que ele fica numa boa e não parece achar “duro ficar na sua quando à luz da lua tantos gatos pela rua”. Ele parece ser mais para o “Me alimentaram, me acariciaram”: como gosta de um dengo. E quem não gosta, né?

Em homenagem ao novo xodó da casa:

História de uma Gata (Enriquez / Bardotti – Versão bras.: Chico Buarque)

Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé… de gato
Me diziam todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felino, não reconhecerás

De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria
Mas agora o meu dia-a-dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora, senhorio
Felino, não reconhecerás
Me aliciaram
Me acostumaram

ALIANA~1Pode parecer esquisitinho, mas nunca ambicionei casar.

Já disseram que nós somos nós e nossas circunstâncias e – seguramente – as minhas contribuíram para essa falta de direcionamento matrimonial na vida. Não acho que isso seja a regra e não questiono aqueles que querem botar “no papel o grande amor”, como cantou meu (platonicamente) amado Chico.

S. e eu somos casados no universo I & S. Não houve qualquer participação do Estado ou da Igreja nessa missão. Não teve edital de proclamas, não houve testemunhas formais, padrinhos, lista de presentes, vestido de noiva. Houve alianças (dessas sim, eu não abri mão, pois acho a simbologia  bonita) e uma viúva Clicquot, sorvida em belas taças que a amiga A. nos deu de presente. And this is it! Nós decidimos que esse era nosso estado de espírito: casados. Ligados unicamente pela vontade de assim estar.

Me vejo agora aguardando não apenas um mas dois casamentos. Um com o famoso “tudo o que tem direito” e outro como imperativo do desejo do casal apenas.

O primeiro é o do meu irmão T. e me deixa muito feliz. T. passou por várias paradas muito pesadas para os seus atuais 27 anos. A última foi um caranguejo no sistema linfático cujo tratamento demorou aproximadamente um ano. Um ano de muito sofrimento, medo, angústia, mas também de aprendizado e esperança. E como um prêmio que se dá a um guerreiro após o fim da guerra ele reencontra P. e decidiu que era hora de pegar uma outra estrada, ao lado de uma mulher bacana, amorosa e independente. O casamento será na Igreja católica, quando já terá ocorrido o civil, eu serei madrinha, com roupa de madrinha (mas nem tanto, não há renda, pedras, nem bordados), farei maquiagem, manicure, cabelo. Enfim, uma produção. Depois terá a festa, onde certamente dançarei com S. (que depois de uma dose acima da humanidade se anima) e da qual sairei exausta. Contudo, não deixo de pensar que as únicas coisas que não podem faltar nessa coisa toda não são bem-casados, lembrancinhas e colares de neon, mas, sim, amor, admiração, desejo, alteridade e trabalho. É… decidir ficar com alguém que se ama, requer trabalho. Não aquele normal, mas o de estar atento a sinais, entrelinhas, fadigas. Mas esse trabalho só se justifica se todos os itens anteriores permanecerem ativos.

O outro casamento é o de M., amiga da série “irmã que não tive”, e J, que namoram há uns 7 anos. M. - apesar de já ter querido muito casar – se tornou uma das minhas: passou a não achar casamento such a big deal. Mas com J. foi capaz de construir um dos relacionamentos mais bacanas que conheço (isso porque J. é também muito, muito especial). Não terá juiz de paz, não terá proclamas (embora vá rolar uns bem-casados – rs) e – tcharan! – não morarão juntos. É isso mesmo! Pode parecer estranho, mas podem ir lá no Código Civil: o casamento não pressupõe a coabitação. Ao meu ver, parece que eles estão se sentindo casados (eles dividem tantas coisas – ou mais até – quanto aqueles que o são) e resolveram dizer isso ao mundo (tá, é um universo mais restrito de pessoas). Podia não ter jantar, gente, bem-casados e alianças (olha elas aqui de novo!), mas o que não pode faltar, tanto neste, quanto no primeiro é amor, admiração, desejo, alteridade e trabalho.

Em um, o Estado foi convidado a participar; no outro, apenas aqueles que gozam da intimidade familiar do casal. Mas, no fundo, no fundo, é tudo a mesma coisa: o embarque na corajosa aventura de uma vida compromissada com outra vida, eternamente, enquanto durar.

A esses nubentes do mês de novembro, que eu tanto amo, que eu tanto quero bem, meu desejo de felicidade. Singelo assim.

01_MHG_botafogo3

Imagem 123

raquete_frescobolBARALHO

São Pedro foi camarada e o sol estava com tudo. Dois dias de praia esplêndida em Itacimirim, com direito a frescobol de dia, pif-paf e uno à noite, providências do escritório andando, Botafogo venceu o Inter (alívio). Enfim, tudo beleza

to do listO Rio-Bahia anda abandonado mesmo… é que (1) estou de saída do escritório onde trabalhei por quase 8 anos, por iniciativa própria, às claras e tudo em paz; (2) estou montando um escritório com Martoca; (3) nessa tarefa de montar escritório não há nenhum glamour (exceto pelo material que compramos para as mesas da gente (liiiindos) e toma muito tempo; (4) estou lendo A Corporação do Joel Bakan (não se deixem afastar pelo título à la John Grisham, não é ficção, embora às vezes pareça. Bom para advogados (principalmente os que lidam com pessoas jurídicas, como eu) mas ele vai muito além, de modo que é bom para todos, em geral); e (5) quero ver se implaco uma ida ao litoral norte amanhã. Oxalá São Pedro me ajude!

detetives selvagensHá pouco tempo postei minha palpitologia sobre o livro do Aguinis (O Atroz Encanto de ser Argentino) e disse que tinha lido com atraso, que comprei no início do mestrado e que sabia – àquela época – que não ia nem poder chegar perto, que dirá ler.

O livro que terminei de ler agora foi outro comprado num momento de surto, pois foi adquirido perto do meu prazo final para entrega da dissertação (mas que senso de oportunidade, não?).

Senhoras e Senhores, informo: finalmente li Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño e digo: bom demais. Não sou resenhista (que dirá profissional), mas a narrativa é incrível, moderna (e não modernosa) e enrosca o leitor. Mesmo sendo um calhamaço de mais de 600 páginas, não pensei, em momento algum, em abandoná-lo. Não por pudor, mas porque era ótimo.

Na segunda parte do livro, que reúne depoimentos colhidos entre os anos 70 e 90 (e que totalizam umas 400 páginas, mais ou menos), me senti à vontade, inclusive, para ler de maneira aleatória algumas partes. Tem América Latina (essa nossa irmã ainda afastada), tem geração ‘golpes militares’, itinerâncias, delírios… enfim, valeu cada página.

É tão bom voltar ao mundo profano! Isso é que é sagrado.

Norman Rockwell

Norman Rockwell

Sempre gostei de escola (com um rápido intervalo na 7a série). Nem sempre gostava de algumas matérias, mais especificamente, matemática. Mas sempre gostei do ambiente estudantil.

Tive a sorte de – no fim do primeiro grau até o final do segundo grau – estudar em um colégio que estava sempre em formação. Desde a estrutura física dele até os processos internos, da relação com alunos e professores. Óbvio que isso tinha inconvenientes, mas eu até hoje acho que esses eram superados pelas coisas boas. Fui presidente de Grêmio, cantei em coral, fazia jornal, participava da rádio (é tinha uma “rádio” no horário do recreio), tinha semana da França (pobre professora de francês), semana da Espanha (pobre professora de  espanhol), tinha a turma que se manteve praticamente a mesma da 8ª série até o 3º ano do 2º grau. Enfim, era um ambiente muito bacana.

No meio disso tudo, tinham os professores. Até com alguns de matemática eu me dava bem. Afora o imenso carinho que guardo pela professora que me alfabetizou, a doce Tia Jota (que foi a mesma que alfabetizou todos os meus primos niteroienses e meu irmão), tive professores inesquecíveis: Valéria (que na minha 4a série comprava LPs de rock para mim com o dinheiro da minha mesada que eu passava para ela, com direito a prestação de contas e tudo), Tomas (que me fez me apaixonar por Física e amar suas conversas mesmo quando já estava na faculdade), Mario Furley (de História), Antonio Assis (Cultura Inglesa), Silvia (ou Silvie), com quem tive aulas de redação incríveis, dentre outros.

Confesso que quando entrei na faculdade senti muita falta desse espírito de se estabelecer uma relação com a turma (a velha crítica sobre o sistema de créditos) e com os professores. No CACO (ou Faculdade Nacional de Direito/UFRJ), os professores muito chegados a alunos não eram, a meu ver, muito respeitáveis do ponto de vista acadêmico. E os respeitáveis eram, em sua maioria, meio distantes. Mas, ainda assim, tenho 3 queridos: Joaquim de Arruda Falcão (fantástico, fantástico, de Constitucional), Sheila Bierrenbach (Penal) e Luiz Felipe Haddad (Processo Civil).

Quando estava na Faculdade, por cursar Direito, não havia “vivalma” amiga de meus pais que não me perguntasse: “e aí? vai querer fazer o quê? concurso para juiz, promotor, blá, blá, blá”. Eu sempre respondia, o que vou ser, não sei, mas quero ser professora. Simples? Não.

Há profissões que eu não vejo, mesmo, grandes problemas da pessoa se formar e emendar mestrado, doutorado e ensinar, mas no Direito, sempre achei isso complicado. Para mim, era imperioso que eu tivesse vivência prática. E vim tendo essa prática até que resolvi que já dava para fazer o mestrado, o que fiz com os seguintes objetivos: estudar, escrever de maneira organizada e ensinar.

Acho uma responsabilidade tremenda ser professora e a cada nova turma ou nova aula eu me sinto como os atores de teatro dizem se sentir a cada estréia, não importa o tempo de estrada: com frio na barriga. Uma aula nunca é igual à outra, nem que eu quisesse, nem que usasse o mesmo material (o que não faço). E dou graças aos deuses por isso.

Há frustrações? Ô se há… mas há imensas alegrias também. Não há nada melhor que sair de uma aula em que a gente sente que houve uma troca legal e que conseguiu botar várias pulgas atrás das orelhas dos alunos, com brilho nos olhos. Isso não tem preço.

Um Feliz Dia do Professor a quem leva esse troço a sério!

marcafestivalComeça neste fim-de-semana o 6o Festiva Internacional de Cinema de Salvador (nome novo, salas novas). Confiram a programação aqui. Este post é muito mais para mim do que um serviço de utilidade pública… quase todos os anos estou fora de Salvador quando o Festival acontece mas este ano, não. Ou seja, não tenho desculpas para não ir.

novo_sinal_de_tr_nsitoAqueles que não conhecem Salvador podem se chocar, mas a cidade é (mal)feita para carros. Pedestres aqui, definitivamente, não têm vez. Este é um dos aspectos da cidade que mais me incomoda (não obstante uns pedestres também bem mal-educados). E isso contribui tremendamente para a pobreza da cidade. Não a material, que sabemos também assolar Salvador, mas a cidade perde em movimento de pessoas, perde em vida.

Recebi do Cazé o post do blog O Último Baile dos Guermantes: políticas intimas & as virtudes dos vícios que fala do trânsito de Porto Alegre e resolvi copiar integralmente porque vale à pena, viva você em Salvador, Rio, São Paulo, Brasília ou qualquer outra grande cidade.

Um Sinal!
Postado por Lucas Jerzy Portela em 10/05/09 • Na categoria Flanar

Porto Alegre é talvez a capital brasileira que mais privilegia o pedestre: tem ramblas, tem ruas verticais em escada, altamente arborizada, calçadas largas, e muito, muito semáforo.
Não poderia melhorar, não é, leitor? Poderia – e a um custo ridiculamente baixo:
Simples como parece, Porto Alegre importou o legendário sinal de trânsito usado pela população de Brasília quando quer atravessar uma faixa de pedestre.  Levou-se um mês de divulgação ostensiva, antes de se começar a multar quem não obedeça ou quem use errado o novo código. Esta divulgação ostensiva foi feita de modo quase totalmente CopyLeft (registro Creative Commons, CC): inclui banners e toques de telefone celular que podem ser baixados a vontade, em 8 estilos musicais diferentes.
Estes toques passam também em rádio. Bem como a propaganda de televisão (acima, e outra para crianças, logo abaixo) pode ser amplamente copiada e reenviada através do Youtube e outras ferramentas de internet.
O morador de Salvador deve estar, a esta altura, boquiaberto. Mas, não acaba aí. Não gostou da campanha? Você pode criticá-la, e colaborar com ela.
E, antes de cair em prantos, um último detalhe: a prefeitura notou que a mão, apenas, estava sendo pouco visível pra início do novo hábito. Criou então mãos gigantes de papelão (como aquelas da Brahma Chopp em época de Carnaval, “A Número 1!”), distribuídas gratuitamente pelas esquinas da capital gaúcha, para serem usadas a vontade pelos transeuntes.
O fato de ser de trânsito totalmente livre fez com que a campanha se espalhasse mesmo para outras cidades: já vi, aqui na Bahia, gente usando este sinal desde então – com algum sucesso! Inclusive eu mesmo.
Aí, vai uma questão. A gestão atual de Porto Alegre é tida como medíocre e levemente mau-caráter (embora a capital seja, há décadas, uma das 40 cidades mais bem geridas do mundo, segundo a ONU – o que é mérito de seus servidores públicos de carreira, e não do partido governante de plantão, qualquer que seja o partido). E consegue fazer isso: uso racional, programático, e barato de propaganda institucional (e não de governo), usando as mídias contemporâneas a seu favor.
José Fogaça, atual prefeito, é do PMDB. O mesmo PMDB obrista (no sentido evangélico do termo) de João Henrique Carneiro e Geddel Vieira Lima. Estes que cagam Salvador com seu “Tome obra tome obra tome obra”, expandem a cidade pro norte, e não tem a menor idéia do que pretendem que a cidade seja daqui a uma década, por exemplo.
Estes senhores nunca se prontificaram a copiar o Rio Grande do Sul, não?

coracao05De uns tempos para cá, um assunto da fisiologia humana, mais especificamente aquela atinente à circulação e em particular a minha – vem me tomando: a frequência cardíaca (como odeio o sumiço do trema) ou, simplesmente, FC.

Qualquer corridinha em uma esteira – besta que seja – e os batimentos cardíacos que deveriam estar, no máximo, a 167-169, vão para 190, sem que eu esteja morrendo, diga-se de passagem.  Ocorre que só eu sei que não estou morrendo e que, pelo contrário, estou lá animadona ouvindo meu Ipod, como já disse num post anterior. Os monitores (é, aqueles escravos das academias identificados pela função de estagiário de Educação Física e que ajudam a economizar na contratação de um bacharel) desconhecem isso e ficam me olhando com aquela cara de “vai morrer” e gesticulam para eu diminuir o ritmo. 

Eu já estava ficando tensa com aquilo e, óbvio, só de ver os estagiários se aproximando da esteira minha FC aumentava ainda mais. Até que resolvi comprar um frequencímetro - o tal do Polar – e, com isso, tentar garantir um pouco  mais de sossego (deixem em paz meu coração!). Mas aí, o estrago já estava feito: eu neurotizara com a tal FC…

Além de ter mamãe médica, A-MAR seriados como ER (finito, finito) e House, ter lido o Cecil de Medicina Básica de maneira tópica (médicos e estudantes de Medicina sabem do que eu estou falando) e uma certa tendência a medicar e chutar diagnósticos, tenho alguns amigos médicos e, em particular, um cardiologista.

Por várias manobras do destino ele vem a ser médico da clínica onde estou fazendo um regime espartano, mas que é uma coisa muito bacana, muito estruturada e que deu utilidade às minhas abandonadas calças jeans.

Na minha consulta com ele, tivemos uma detida conversa sobre minha FC. Preciso dizer? Me vi envolvida com vários exames e os resultados foram tranquilizadores: minha pressão não sobe como supostamente subiria em alguém com uma FC tão elevada, atinjo o nível de repouso rapidamente após encerrar a atividade física e eu não fico cansada como a tal FC indica que eu estaria.

Doctor Barojas me deu várias dicas de “adestramento” de FC e eu tenho procurado seguí-las, mas, para isso, deixei de correr e, mesmo nunca tendo sido maratonista, me ressentia com essa limitação.

Semana passada, enquanto eu esperava o o nutricionista da clínica, encontrei Doctor Barojas e aproveitamos a ocasião para um papo-atualização e uma consulta improvisada e lá veio a pergunta: como vai sua FC? Eu respondia que ela estava bem comportada, boazinha mesmo, mas que para mantê-la assim, na rédea curta, eu tinha deixado de dar as tais corridinhas. Acho que por ter percebido um certo saudosismo na minha resposta, Doctor Barojas me deu outras dicas para que eu voltasse a incorporar – aos pouquinhos – a corrida, como um modo de ir condicionando esse meu “músculo involuntário” e ele terminou me dizendo:

- Nena, na verdade, você é um paradoxo cardíaco.

Ficamos combinados assim, ok?

Próxima Página »